Precisamos falar sobre Animais Norturnos

Depois de um longo intervalo sem inspiração ou motivação para postar sobre qualquer coisa, eu finalmente encontrei algo que sacudiu minha massa cinzenta. Então, hoje eu quero falar sobre o filme Animais Noturnos do diretor Tom Ford. Eu comecei a assistir o primeiro filme de Ford quando eu estava procurando algo no Netflix. Para dizer a verdade, seu primeiro filme como diretor “A Single Man” foi (na época) muito enfadonho e eu nunca terminei, mas depois de assistir Animais Noturnos eu sinto que eu deveria dar outra chance ao seu primeiro longa.

Vamos começar com uma sinopse simples e compacta: Susan (Amy Adams) é uma mulher rica e infeliz que possui uma galeria de arte e recebe um manuscrito de seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal). O livro é perturbador e violento, mostrando a busca de Tony (também interpretado por Gyllenhaal) por vingança depois que ele perde sua família.

__Não o leia se não quiser saber o que acontece__

O filme é muito mais do que uma sinopse simples e compacta, que eu mesmo achei difícil escrever sobre ele, mas vamos fazê-lo do início. O começo do filme é completamente inesperado. Eu tive que fazer uma pausa e fazer uma pesquisa rápida, porque eu pensei seriamente que eu tinha alugado o filme errado. Era o filme certo. Começa com várias mulheres obesas nuas dançando. Parecia estranho, mas depois vemos que isso pertence a uma das exposições da galeria de Susan.

Quando eu vi os comentários sobre a abertura do filme, eu li algumas perspectivas diferentes, e talvez o melhor seria o fato de que a arte que vemos é tudo o que Susan não é. Ela também parecia muito desconfortável, respirando pesadamente quando ela estava cercada de pessoas, e então tranquila e sem emoção, uma vez que a galeria estava vazia. Bonita e morta.

Ela dirige de volta para sua mansão e logo depois que ela chega, alguém que não vemos estaciona um carro. Na manhã seguinte, aprendemos que alguém lhe deixou um pacote na caixa de correio. Por que isso é relevante? É claramente Edward deixando seu livro. O pacote não tem nenhum endereço. Susan corta o dedo ao abrir o pacote e faz seu assistente voltar para abrir para ela. É apenas um pequeno corte de papel, ela não consegue lidar com isso sozinha. O que mostra muito sobre quem ela é. Continue com minha linha de raciocínio.

O assistente lê a nota para ela, que é Edward dizendo que ele escreveu um livro que será publicado e é diferente do que ele estava escrevendo quando eles estavam casados, e ele gostaria que ela lesse primeiro e ele deixa seu número e email, para que ela possa contatá-lo e se verem. Agora, essa parte é importante, por causa do fim.

Então ela tem uma breve conversa com seu marido, que a trai, ela está chateada porque ele não apareceu na galeria na noite anterior e nem dormiu em casa. Eles também falam brevemente sobre Edward, e ela mencionou que é triste que ele não tenha se casado novamente.

Agora, depois deste ponto, veremos Susan lendo o romance e experimentando algumas emoções. Ela está profundamente perturbada com a história, que mostra Tony perdendo sua família e buscando vingança. O livro dentro do filme foi usado como uma metáfora para a história de Edward e Susan. Enquanto estavam casados Susan costumava criticar seu trabalho, dizendo que ele escrevia muito sobre si mesmo, e ele com razão diz que todos os escritores escrevem sobre si mesmos de alguma forma. Enquanto Susan pensava que Edward era fraco, ele oferece um livro que mostra muita força, muita brutalidade que é como Edward se expressa, através de palavras.

Susan deixou Edward e se casou com Hutton Morrow (Armie Hammer), ela também fez um aborto, que foi seu ato violento contra Edward, e provavelmente a razão pela qual o livro que ele escreveu trata de emoções tão cruas e violentas.

Alguns pontos que eu gostaria de expor: Susan é triste e solitária e lendo o livro é quase uma conexão humana. Ela sabe que o que está lendo são sentimentos. Ela sabe que Edward é Tony. Ela também se sente culpada. Quando ela deixa Edward e tem um aborto, ela diz a Hutton que ela vai viver para se arrepender, e de fato. Porque ela era insegura sobre si mesma e não tinha fé em Edward. Além disso, embora ela não acreditasse nele, ele foi capaz de escrever porque ela o fez. Faz você pensar que, se estivessem juntos, ele nunca conseguiria o que queria. No outro espectro, Susan sempre foi infeliz, e embora tenha sucesso, nunca encontrou felicidade.amy adams - susan.jpg

A cena final é Susan em um restaurante extravagante esperando Edward aparecer. O que ele nunca faz. É o ato final de vingança? Talvez. Minha teoria é que ele realmente queria que ela ligasse. Ela lhe envia um email para combinar um encontro, mas por que não ligar? Ela tinha seu número, ele diz que ela pode ligar ou mandar um email. Foi como uma escolha. Ela poderia ter telefonado e ter um contato real. Ouvir sua voz, enfrentar o passado. Em vez disso, ela manda um e-mail. Uma maneira mais fria de se comunicar. Ela ainda é a mesma. Ele seguiu em frente.

O filme terminou com uma sensação de “vingança é um prato que se come frio”. No ato da vingança de Edward ele também se mata (metaforicamente, já que Tony atira em si mesmo no final do livro), e talvez isso seja algo que Susan não entende até o fim. Ele está morto. Ele não pode mais ir jantar com ela. Ela o perdeu. Ela não pode recuperá-lo agora, depois de tudo o que aconteceu.

Depois de assistir ao filme eu também li uma entrevista com Tom Ford. Ele diz que não é apenas sobre a vingança e os erros que cometemos em nossos relacionamento, mas também sobre a cultura que nos impele a buscar por segurança (o que é uma ironia engraçada porque nós aprendemos que Susan e Hutton estão realmente lutando não apenas com seu casamento, mas também financeiramente), que nos força a buscar riqueza material, beleza física, mas nos deixa vazios e mortos por dentro.

No final, eu senti que este é um filme que eu gostaria de re-assistir algumas vezes mais. Foi um filme que me lembrou o livro/filme Precisamos falar sobre Kevin, da Lionel Shriver. Intenso e silencioso em vários momentos, cheio de emoções e profundamente desconfortável. Isso nos força a pensar, a prestar atenção, a ouvir além dos sons e a ler além das palavras.

Qual foi a sua opinião sobre o filme?

Os pesadelos de Holly – Parte 2

Holly acordou num mundo em que ela não tinha criado. Era tudo tão claro que ela pensou que tinha ficado cega. Ela gritava hello, hello, mas só o eco de sua própria voz a respondia. Ela começou a andar pela vastidão iluminada. Sera que morri? Ela se perguntou. Porem ela não se sentia morta. Ela também não achava que estava no céu ou menos ainda no inferno. Era tudo branco e vazio. Ela se deslocava, mas nada acontecia e parecia que estava sempre no mesmo lugar. Holly estava surpreendentemente tranquila. Não estava assustada ou ansiosa. Estava, na verdade, curiosa. Onde sera que parei? ela pensou, que sonho mais estranho, ela também pensou. E assim, achando que estava dentro de mais um de seus esquisitos sonhos, ela deixou sua imaginação flutuar. Não demorou muito e tudo ao seu redor começou a mudar. Ela imaginou ruas e postes. Árvores e pássaros. Começou a andar e criar no canvas branco onde se encontrava.

Tudo começou a se mover rapidamente. As cores foram impregnando no cenário da imaginação de Holly e tudo se tornou um pouco mais radiante e bonito. Ela continuou andando tranquilamente em seu novo mundo. De algum lugar do alto um grande pássaro fez um voo rasante e Holly ficou inconformada. Ele não era fruto da sua criação, como é que tinha ido parar lá? O pássaro bloqueou sua passagem e Holly o encarou.

O que você quer? O que está fazendo aqui? – O pássaro a olhou curiosamente. Holly podia jurar que o pássaro piscava para ela, mas ele não respondeu. Holly tentou passar pelo lado, mas o pássaro abriu as asas. Sem saber o que fazer, Holly decidiu abrir os braços também e mergulhar em um abraço. Quando ela se aproximou para tocar o pássaro ele desapareceu em fumaça. Puf! E Holly quase se desequilibrou. O caminho adiante tinha mudado novamente. Estava escuro e úmido e completamente silencioso. Holly descobriu que estava com frio e imaginou uma coberta sobre seus ombros. Ela não queria mais andar, estava cansada. Tentou imaginar um abrigo. No fim da rua apareceu uma casa bem tortinha de madeira que mais parecia uma caixa de sapato, mas quando Holly tentou abrir a porta tudo congelou. Sua mão ficou grudada na maçaneta. Ela começou a chutar a pequena porta com toda sua força. A porta quebrou e finalmente ela conseguiu se livrar da maçaneta, mas o abrigo seria inútil para ela.

Do outro lado da rua o pássaro reapareceu sentado num galho de árvore. Holly foi atá a árvore e chorou. O pássaro desceu até ela num pulo e a acolheu embaixo de suas asas. Tudo ficou quente e incrivelmente reconfortante e Holly caiu no sono novamente.


Leia também: Os pesadelos de Holly – parte 1

invernos

Suas mãos estavam vermelhas e trêmulas
Eram delicadas, mas nervosas
Sua voz tentava sorrir, mas seus olhos fundos revelavam a carga de seus sentimentos
A garota que a estava ajudando no supermercado notou seu desespero silencioso
Ela sentiu calafrios e fez tudo o mais rápido que pôde
Em seu carro, no banco do passageiro, lá estava ele
O motivo de suas noites mal dormidas
Ele estava com a cabeça encostada na janela, a boca semi aberta
Os olhos tinham um brilho resgatado de criança
A memória pregando peças
Ele observava os pássaros cantando e brincando em uma árvore 
O vento do outono já havia passado por ela
Praticamente toda sua folhagem deitava no chão
Eram crocantes como o verão, mas anunciavam prelúdios de inverno
Ele riu
Achou engraçado quando três crianças saíram correndo chutando e pisando nas folhas
Pegando-as do chão e jogando pro alto
E uma chuva de folhas secas amareladas caia de volta sobre elas
O barulho da porta abrindo interrompeu a brincadeira
Ele olhou pro lado e a viu colocando as sacolas no banco traseiro
Então ela sentou-se ao seu lado e ele ouviu o barulho das chaves
E depois o carro já andava e ele via tudo passar e ir embora sem tempo para perceber o que estava lá
Ela não falou nada
Ele também não
Mas ele podia ouvir sua respiração cansada
Ele podia quase tocar o ar que pairava
Eles chegaram em casa
Ela estacionou na garagem, mas não o deixou saltar
Primeiro ela levou as sacolas para dentro
Ele ficou ouvindo o barulho do carro esfriando
E ele podia ouvir o barulho das sacolas entrando na casa
Ela veio para a porta ao seu lado
E quase em um abraço apertou o botão para liberta-lo do cinto de segurança
Ele conseguia sentir seu perfume
Era suave como um beijo
Ele gostava do cheiro dela
Ela o ajudou a andar 
O braço dele sobre o ombro dela
O braço dela na cintura dele
Um apoiando o outro
E os dois entraram juntos na casa
Onde todos os alívios se encontravam
O futuro tem dessas coisas
De inverter histórias
De pegar desprevenido
De mudar vidas
Um dia a filha tinha se tornado mãe
E o pai tinha se tornado filho

estranhos finais felizes – primeira história (parte 10)

Tom estava na cozinha preparando um café quando Harper apareceu na porta do quarto. Ele sorriu para ela e ela sorriu de volta.
– Fazendo café? Que horas são?
Ele sorriu de novo e abaixou a cabeça para continuar a tarefa. Tom tinha uma dessas cafeteiras francesas, ou prensa francesa. Ele estava moendo os grãos de café naquele momento.
– Bom, quase 8 da manhã.
Harper bateu com a mão na testa e fez uma careta, então ela andou até o balcão da cozinha e sentou displicentemente em um dos três bancos altos que Tom possuía. Ela re-ajeitou os longos cabelos em um coque meia-boca e descansou a cabeça nas mãos observando Tom colocando o café já moído no jarro e logo após a água fervida.
– O que vai fazer hoje? – Ela perguntou.
– Eu que deveria perguntar isso, não? – Tom respondeu, perguntando de volta.
– Você também gosta de responder uma pergunta com outra pergunta?
Eles trocaram um breve e sorridente olhar. Tom mexeu uma colher grande na prensa francesa e depois esperou alguns minutos para a infusão.
– Eu tenho que dar um pulo no trabalho – Tom respondeu por fim – mas não devo ficar por lá por muito tempo. Eu montei uma pequena lista de sugestões de coisas que você pode ver, coisas que possam te interessar… ele pegou uma folha impressa e entregou para Harper, ela leu cuidadosamente. – Café?
– uhum…
Tom pegou duas xícaras de seu armário. Ironicamente elas diziam “you’re my cup of tea”. Harper riu quando percebeu.
Passado o tempo de infusão, Harper assistiu Tom apertar com cuidado o pistão, separando o pó do líquido com a destreza de um barista.
– Hey Tom…
– Sim? – ele estava servindo o café.
– Será que você pode me mandar essa lista por email?
Tom se sentiu embaraçado – de novo – e faz o café espargir. Claro que podia mandar por email, que ideia imbecil de imprimir, ele pensou.
Ela notou que ele ficou sem graça.
– Adorei as dicas, só vai ficar mais fácil de localizar tudo usando o celular.
– É claro, não tem problema.

Os dois tomaram café quase em silêncio. Trocaram uma ou outra palavra. Ele ainda estava um misto de hipnotizado por sua beleza e se sentindo um completo ultrapassado imprimindo a lista.
Tom contou um pouco de seu trabalho e Harper contou um pouco de sua história modelando. Combinaram de jantar juntos. Harper confessou que queria ir no Wahlburgers, disse que sempre foi fã do Mark Wahlberg, Tom foi pego desprevenido e achou aquele fato um tanto bizarro.
– Hei, não vá rir de mim por causa disso hein?!
Ele ficou o dia todo curioso querendo saber qual seria o filme favorito dela. Ou se ela assistia aquele reality show.
Terminado o café, Tom pegou suas coisas e saiu. Deixou Harper com uma cópia da chave e lhe deu algumas orientações básicas sobre o apartamento. Antes de sair, no entanto, ela o acompanhou até a porta, e Tom, num ato involuntário beijou Harper. Não foi um beijo de Hollywood. Foi um rápido beijo nos lábios. Um selo. O beijo mais menos apaixonado da história da humanidade. Quando Tom fechou a porta atrás de si, porém, seu coração estava acelerado. Seu rosto vermelho. Ele não sabia o que tinha lhe acometido para beijá-la assim, de supetão, mas como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ele adicionou aquele sentimento de vergonha ao sentimento de mais cedo, com a estúpida ideia de imprimir a lista. Que raios está acontecendo comigo, ele pensou. Harper, do outro lado da porta, seguiu a vida normalmente. Não examinou aquele pequeno beijo sob o microscópio como Tom estava fazendo. Porque para ela, não teve importância. Ela não se incomodou por ele ter feito isso. Ela não viu aquilo como um ato romântico ou uma tentativa forçada de Tom. No fundo, ela imaginou que Tom o fez sem pensar, de forma mecânica. E, é claro, Harper nunca veria Tom como um possível amante. Porque Harper tinha Alice. Tom decidiu mandar um sms pedindo desculpas. – Sobre mais cedo, na porta, não tinha intenção de, você sabe, ter te beijado… completamente envergonhado e incluiu alguns emoticons. Ele se sentiu um completo idiota escrevendo aquilo. Afinal, ele já beirava os 40, e aquela mensagem parecia inapropriada para alguém da sua idade. Decidiu se desculpar pessoalmente, como um verdadeiro adulto deveria fazer.

Continua…


Leia as partes anteriores, aqui.

Vi e uma reunião inesperada

Quando os pássaros sobrevoaram a casa de Vi, eles não puderam ver que algo realmente os esperava. Os pássaros pousaram no jardim e Ami, Ti, Tai e Vi se despediram deles e se aventuraram a entrar na casa, que descobriram sentir tanta falta. Na sala, sentada de forma saturna estava Senhora Temporana. A família, acompanhada de Ami, andou cautelosamente até o sofá. Pé ante pé. Esperando o que estava por vir.

– Ora, ora, ora – Disse Temporana em um tom de voz nada agradável. Finalmente chegaram. Pensaram que poderiam escapar de mim? Pensaram que eu não iria descobrir os planos mirabolantes que tiveram?

Nem um deles falava. Todos olhando para Senhora, pasmos. E ela continuou:

– Quem lhes deu o direito de libertar o líder dos sorrisos livres? Hein?! Quem?! Se acham muito bravos e corajosos? Se acham muito espertos? Pois saibam vocês que tudo o que Cins é hoje, tudo o que Cins possui é por minha causa. Essa era uma terra de tolos. Sorrindo para lá e para cá. Sendo felizes e não se importando com nada. Fazendo amigos. Seguindo sonhos. Não! Não poderia deixar esses tolos controlar a terra de Cins! E agora me vem vocês. Vocês com seus sorrisos proibidos, trazendo problemas de volta para Cins! O que pensavam? Que eu não ia perceber o arco-íris? Que eu não iria notar a visitinha que me fizeram com aquela torta, para tentar roubar de mim informações? Acharam que eu não iria perceber a desordem na rotina do Cinsanos?

Ti, Tai e Vi ainda olhavam arregalados para Senhora, sem nem tentar contestar. Mas Ami, cansado do que estava ouvindo, toda aquela baboseira, decidiu que era hora de por um ponto final naquilo. Ele se aproximou de Senhora. E ela parou de falar enquanto ele se aproximava. Ele chegou mais perto. E mais perto. E mais perto. Até ficar cara a cara com ela. Num movimento que ninguém esperava, Ami a envolveu em seus braços. A abraçou acolhedoramente. A abraçou com muita força. Um abraço de ursa mãe. Um abraço que arranca sentimentos enterrados.

Vi se juntou a Ami no abraço alguns minutos depois. Seu corpinho abraçando as pernas de Temporana. Depois Ti e Tai se juntaram a eles nesse abraço em grupo. E o calor e amor de todos aqueles abraços começou a penetrar Senhora. Entrou em suas mãos, em seus braços e pernas, na barriga, no rosto, nos cabelos, nos dedos do pé, na cabeça e no coração. Depois entrou nas memórias e pensamentos, no amago e alma. O calor foi derretendo seus medos. Foi derretendo suas mágoas. Foi derretendo seus pesadelos. E depois de tudo derretido, o calor daqueles abraços começou a plantar novas sementes. Sonhos. Ternura. Empatia. Compaixão. E, no começo, a Senhora tentou lutar contra isso, tentou manter as raízes de seu azedume, mas os abraços foram mais fortes, mais contagiantes. Os abraços que curam.

Os abraços trouxeram uma nova vida. E dos abraços surgiram os sorrisos. Ami sorriu. Vi sorriu. Ti sorriu. Tai sorriu. E, por fim, se rendendo sem confronto, Senhora Temporana sorriu pela primeira vez em sua vida. E o seu sorriso lhe tornou mais jovem e, também pela primeira vez, mais feliz.


Leia os capítulos anteriores, aqui.

 

Magnolia – Parte 2

O dia de visitação acontecia todos os sábados pela manhã. Embora Magnolia não conseguiria dizer exatamente quando foi a última vez que ela viu uma de suas filhas, ela enviava cartas de vez em quando. Aos 68 anos, quando Magnolia foi presa, ela tinha pouco conhecimento de qualquer coisa, ela era esperta, mas não educada. Morrendo de tédio e sem muita escolha sobre o que fazer com sua vida na prisão, ela decidiu se juntar as poucas classes que a prisão oferecia as detentas. Esta talvez tenha sido a melhor decisão de sua vida em muito tempo. Ela estava vergonhada ao começar, não porque nunca sentiu muito desejo em aprender, mas porque ela tinha tentado antes e riram dela. As prisioneiras que se juntaram a ela na pequena sala de aula estavam tão inseguras quanto ela. O que tornou tudo um pouco mais fácil, um pouco de empatia. Era difícil se concentrar e aprender. Sua professora, uma guarda que tinha pouca paciência, mas nenhuma outra opção dentro da hierarquia da prisão, era uma mulher forte, com ombros largos, os cabelos sempre escondidos pelo boné, Magnolia tinha quase certeza de que eram loiro-escuros. Seus olhos eram profundos e verdes. Olhos muito bonitos para uma mulher tão bruta. Ela era muito séria, como ela deveria ser. Magnolia muitas vezes pensava que ela poderia ser uma pessoa legal fora da prisão, fora de seu trabalho. Ela esperava que ela tivesse uma chance de vê-la sorrir algum dia. Depois de alguns meses aprendendo a escrever uma carta sem muito significado, Magnolia decidiu escrever algo para seu filho e filhas. Sua primeira carta foi para Nelly, sua filha mais nova.

Nelly, agora com 36 anos, tinha 4 crianças, bem como Magnolia. Três meninas, um menino. Ela se casou com seu namorado de escola. Engravidou e casou-se logo depois. Magnolia achava que ela tinha tanto potencial na vida, mas ela se deu por satisfeita em ser uma dona de casa. Ela sentiu pena de sua filha. Ela se envergonhou por não ser capaz de dar-lhe melhores direções. Nelly era a sua segunda favorita. Seu favorito dos quatro era Albert. Isso nunca foi falado abertamente, mas todo mundo sabia. Ela amava todos os seus filhos, não é como se ela o amasse mais do que os outros, mas a culpa a fez dar-lhe qualquer coisa que ele queria. Enquanto as meninas tinham que resolver isso por conta própria, por assim dizer.

Nelly visitava sua mãe apenas duas vezes por ano. No dia das mães e no aniversário de Magnolia. Por causa disso, Magnolia achou que seria bom enviar a sua filha uma carta em seu aniversário, uma vez que, obviamente, ela não podia visitá-la.

Para Nelly Jones

De Magnolia Jones

Oi minha querida, eu aprendi a escrever. Eu ainda estou aprendendo.

Eu sei que seu aniversário está próximo

Eu queria poder estar aí para te fazer um bolo e te dar um abraço.

Desculpa por não poder.

Feliz Aniversário.

Eu te amo com todo o meu coração.

Mamãe.

Era isso. Essa foi a primeira carta que Magnolia escreveu em sua vida. Ela tinha pedido a sua professora para ajudar na edição da carta, mas ela era osso duro de roer. No final, Magnolia estava orgulhosa de si mesma. Foi um pequeno passo, mas foi uma grande conquista para ela. Nelly nunca mandou resposta. Quando ela foi para uma de suas visitas anuais Magnolia mencionou a carta, Nelly disse que ela recebeu e ela estava feliz em saber que sua mãe estava fazendo algo para melhorar, mas ela não acrescentou mais nada. Isso fez Magnolia se sentir um pouco invisível. Um nó começou a se formar em seu peito. Como uma mão apertando seu coração. Quando Nelly foi embora naquele dia, Magnolia jurou nunca mais enviar-lhe uma carta novamente. Em vez disso ela enviava cartões de Natal cada vez que um estava disponível. Ela só escrevia “Com amor, Mamãe” nessas cartas. É assim que ela as enviava. O primeiro que ela enviou tinha um desenho de Papai Noel dizendo ho ho ho, com e dentro uma frase impressa que dizia “um feliz Natal para você e sua família”. Magnolia estava chateada e magoada, e depois de enviar o primeiro cartão se sentiu um pouco culpada. No entanto, depois de dias e semanas sem resposta alguma, Magnolia sentiu aquele aperto no peito novamente. O segundo foi Rudolph com o seu grande nariz vermelho saltando sobre montes de neve e letras vermelhas que diziam Um ótimo Natal… e na parte interna … e muito amor a todos vocês. O terceiro era uma pilha de presentes embaixo de uma árvore de Natal e a frase Feliz Natal. O quarto cartão foi Papai Noel novamente, desta vez descendo uma chaminé, a barriga muito grande entalada. Ela ainda precisava decidir qual seria o quinto cartão. A esta altura, enviar os cartões era mais como uma tradição que tinham estabelecido. Magnolia sabendo que ela nunca iria obter uma resposta apropriada, e Nelly sempre esperava pelos cartões. Embora ela nunca iria confessar isso a sua mãe, Nelly sempre exibia todas os cartões natalinos enviados por Magnolia, pendurando-os em sua árvore a cada Natal.

Quando Wanda se deu conta de que Magnolia estava enviando cartões para Nelly ela ficou irritada. Não porque o cartão era tão curto, e não realmente emocional como deveria ser. Ela estava chateada porque ELA não estava recebendo esses cartões. A verdade é que Magnolia enviava Wanda cartas ocasionais, mas nunca cartões de Natal. Nunca. Então, quando ela teve a oportunidade, ela desabafou para sua mãe. Magnolia ouviu todas as suas queixas sem um pio. Ela sentou-se e ouviu a sua filha mais velha reclamando de que ela era desatenciosa e não demonstrava nenhum afeto por ela e por seus filhos. Wanda tinhas dois meninos. Ambos adultos agora. Magnolia não mostrou seus verdadeiros sentimentos naquele dia. Ela manteve seus pensamentos para si mesma. Porque o que ela estava pensando era ainda mais doloroso do que o que Wanda estava dizendo. Magnolia queria dizer que Wanda era egocêntrica. Que ela estava muito ocupada cuidando de si mesma para entender qualquer coisa fora de seu umbigo. Ela era mimada, uma pirralha, e Magnolia sempre esteve lá para ela. Tendo cuidado de seus filhos quando eram pequenos. Dando a ela e ao marido janta quase todas as noites, porque ela sempre teve preguiça de cozinhar. Magnolia queria dizer tantas coisas, mas ela sabia que não podia. Ela sabia que se deixasse qualquer um daqueles pensamentos fugir Wanda nunca iria perdoá-la. Assim, manteve todos os seus pensamentos e sentimentos para si mesma.

Wanda não foi sempre assim tão amarga. Embora ela sempre tenha sido independente e egoísta, ela estava feliz a maior parte do tempo. Isso foi há muito tempo atrás. Antes  de ela ter se casado. Antes de ter se apaixonado. Antes de ter filhos. Ela era feliz, solteira e linda. Tudo mudou depois que ela conheceu Eddy. Eddy era muito sério, cara de mau, de pavio curto. O tipo de cara Wanda gostava de pegar, porque era um desafio para conquistar, mas o pior parceiro na vida. Ele era controlador, ciumento e obsessivo. Pouco depois de eles se casarem ela ficou grávida. A gravidez mudou completamente seu corpo. Ela costumava ter um corpo que causaria tanta inveja. Ela estava comendo por quatro quando ficou grávida, embora apenas carregava um filho na barriga. Eddy Jr. Ela nunca recuperou seu amado corpo. Eddy nunca mais recuperou sua esposa atraente. Assim, ambos tinham azedado. Ambos presos em uma união quase sem amor. No entanto, Eddy nunca iria largar o osso. Assim como um cachorro assustado e com raiva. Ele iria ficar ali com o osso em sua boca para sempre. Nunca separaria. Esse era o relacionamento dos dois. Não mais do que o sentimento familiar. Eles pertenciam um ao outros, mas suas mentes já estavam separadas. Ele não poderia enfrentar um divórcio, ele não poderia enfrentar a ligeira possibilidade de ter um casamento fracassado. Especialmente depois que a mãe e o pai de Eddy decidiram se separar. Não foi um choque para todos, mas certamente deixou Eddy louco. Ele se recusava a seguir os passos de seu pai.

Continua…


Anteriormente: Magnolia – Parte 1

Disponível em inglês, aqui.

 

the kissing spell

Once was a little girl that could not be kissed

She was under a spell

Her parents very concerned knew well not to get too close

Even a tiny kiss in her cheeks would trick the spell

The spell was so terrible

A kiss given

A memory erased

The spell was cast by, of course, an evil witch

That came uninvited to give such a gift?

So the girl grew up

Her memories intact 

But no kisses given, at least so far

Mom and dad decided to let her know

That she should not even think about kissing someone

But, of course, once that was said there was nothing else she could think of

Why can’t I kiss

Just a little kiss

Just a tiny little one

She was so sad she ran away

And she entered the magical land of her backyard

And she lost herself in thoughts

Maybe there’s a way

So she dried off her tears

And made a big decision

She would go on and kiss whatever she wanted

And she would try to remember all the good memories she had

So off she went 

Beyond the magical backyard of hers

Kissing flowers

Kissing animals

Kissing trees

And she could remember everything important she had memory of

Her mom

Her dad

Her house

Her friends

Then something happened! Of course!

A man came her way

Could be a prince? She thought

And a prince would definitely break the spell

She heard the stories before

A kiss from true love shall break such terrible spell 

The man approach 

And she ran to his arms

Oh! It is you! Kiss me now!

The man was so surprised

Could not believe what he heard

So, of course, he kissed her dearly 

When the kiss was over 

Oh the poor woman

Could not remember anything

Such a powerful kiss

She thought

Took her off her feet

So they kissed again and again

Until that kiss was the only memory left in her brain

The man, was no prince, but why would she care?

The kiss was the best thing she had had

The evil witch was in the middle of a laugh when she look her spell working

But the woman kissing was so happy that the witch got interrupted 

Damn, those spells, no matter what I do

Why can’t one work

Just one

Just a tiny little one

So in a moment of depression 

The evil witch cast herself the same kissing spell

And off she went kissing everything else

Losing all her memories 

And now no one knew how to break the evil spell

I guess in the end

Kissing is just as well

The end 😉